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Domingo, 31 de Janeiro de 1982
O rapaz que tinha medo do mar de "Contos que contam"
 
 

Para o João, o André, a Carolina, a Rita e a Patrícia

 
 
Era uma vez um rapaz que tinha medo do mar. Essa fobia não espantava ninguém e raramente lhe tinha trazido mais que embaraços e dissabores. Aquele que verdadeiramente causava espanto a todos os que tinham a sorte de poder entrar no seu refúgio mais valioso, era o vizinho da frente, um rapaz calmo que tinha o nome singelo de João e um sobrenome polaco, que as pessoas pronunciavam de três maneiras, todas elas muito distantes da pronúncia dos seus antepassados, bisavós dos seus avós, em Varsóvia.
Aqueles que tinham mais receio de mostrar alguma ponta de ignorância, mesmo tratando-se de um sobrenome polaco quase impossível de pronunciar por não-polacos, optavam por chamar-lhe apenas João, revelando uma falsa familiaridade. João era um rapaz de óculos e borbulhas muito vivas que só por si não espantava ninguém. Aquilo que realmente surpreendia e emocionava alguns dos poucos privilegiados era a sua colecção de selos. As paredes do quarto de João estavam cobertas, desde o chão ao tecto, por álbuns de selos. Sob a cama, havia álbuns de selos. Na gaveta e em todo o interior da mesinha-de-cabeceira, uma pilha de álbuns de selos. Mais do que uma simples arrumação por países, valores e datas, João passava tardes, passava a sua vida inteira, a encontrar formas de organização, absolutas e precisas, que não se baseavam em números, mas em elementos muito concretos, como a intuição ou a beleza.
  
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José Luís Peixoto; Contos que Contam,

O rapaz que tinha medo do mar

 

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nescritas às 15:21
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  JOSÉ LUÍS PEIXOTO
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